Eu sou o caminho da felicidade. Eu posso tudo. Estou com você todos os dias. Sou aquele que sabe dos teus segredos mais ocultos. Que estimula tuas mentiras e desvia teus olhos e tuas mãos. Eu sou o mundo em que vives. A verdade e não a fantasia das escrituras. Entrego à você os prazeres da carne sem exigir nada em troca, apenas tua lealdade. A mesma que marquei pelo ferro na tua alma. Sou a realidade. O anjo que vive dentro de você. Ofereço uma vida de delícias e prazeres sem pecados. Tudo que desejares entrego numa bandeja de prata. Quero que aproveites da melhor maneira possível. O que mais desejas? Livre posso colocar o mundo aos teus pés. É só pedir. Aproveite. O teu poder sobre minha proteção e cuidado não têm obstáculos ou limites. Podes e deves tudo. Meu protegido e meu seguidor. Seremos um só em carne e espírito. Estaremos juntos até mesmo depois da morte”.

Seria um anjo falando? Mas que tipo de anjo?

Desde o início dos tempos, escritores, filósofos, sociólogos, pesquisadores e teólogos estudam temas voltados aos dois caminhos da vida terrena: o bem e o mal.

O que pode representar um anjo caído?

Por mais de três mil anos, temos sido visitados por imagens de anjos. É uma longa tradição literária que se expande da antiga Pérsia para o judaísmo, o cristianismo, o islamismo e nas várias religiões existentes na Europa e nas Américas.

Existe uma fascinação pela figura dos anjos nas duas últimas décadas através da música, da literatura e do cinema. Vários escritores contemporâneos, consagrados ou não, vêm levantando temas sobre o assunto.

Para o escritor Harold Bloom, existem, por exemplo, três categorias simbólicas das religiões do ocidente que se misturam muitas vezes, sem critérios de definição: os demônios, os diabos e os anjos caídos.

Demônios e diabos são regularmente relacionados com o mal no imaginário popular, enquanto anjos caídos, apesar de caídos, ainda são anjos.

Examinando uma gama de clássicos da literatura, como Hamlet, de William Shakespeare, Paraíso Perdido, de John Milton, a Bíblia, peças de teatro, contos, poemas e crônicas, descobrimos algumas vezes que nós mesmos somos anjos caídos.

Para Bloom – um dos mais consagrados críticos literários dos Estados Unidos – a imagem de satã, o maior de todos, tanto fascina como assusta, por ser nosso parente.

Em toda literatura os anjos têm servido como metáfora da morte. Ser caído faz parte da condição humana: daí vem o conhecimento de nossa própria mortalidade.

Pode ser o adolescente entregue ao mundo das drogas sem encontrar uma porta de saída. Como identificar, e o mais importante de tudo, entender esse adolescente e o seu universo para prevenir o seu mergulho para a morte.

Mas tal fase pode trazer outras lições menos dolorosas e mais fascinantes como a descoberta do corpo, sua fragilidade, nossas limitações humanas, o significado do sexo e toda sua extensão.

E aqueles seres esquecidos nas favelas dos grandes centros urbanos do Brasil e do mundo, não poderiam ser também anjos caídos?

Ignorados pelas autoridades e cercados pela criminalidade, marginalizados pela sociedade, sem possibilidades de desenvolvimento, desprovidos de respeito crescendo e morrendo na miséria?

Quem sabe os mendigos de todos os lugares? 

Aqueles que moram principalmente pelas ruas de New York, Los Angeles, Paris e Rio de Janeiro. Cidades glamourosas e ricas.

Mas também podem ser totalmente invisíveis e viverem em outra dimensão.

Segundo dois escritores ingleses, demônios, fadas e anjos caídos estão em todos os lugares.

Eles armam emboscadas, ficam atrás de portas, escondem-se em diversos lugares, esgueiram-se para as camas, aguardam em cavernas, pairam sobre casamentos e nascimentos, disfarçam-se como amigos e parentes, e para os escritores são versáteis, poderosos e encantadores.

Hoje existem até guias ensinando a linguagem dos anjos.

O conforto que descobrimos em alguns textos, é a condição recíproca de que anjos também representam o amor e a celebração das possibilidades humanas.

Ao Pai, no entanto, é dado uma certeza: só Ele sabe e conhece o coração de cada um. Sua igreja. É ali que está a chave da salvação.

Gerald D

By Gerald D

Gerald D é um atento observador da vida, da política, das artes, da música, da literatura e de tudo o que pode enriquecer alguém culturalmente. Gremista desde sempre, de quebra também escreve com muita propriedade sobre futebol

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *