Os mortos chegaram. Vinham de longe fazer companhia. Gente que eu não conhecia. Todos robustos, bem vestidos e felizes. Alguns me abraçaram faceiros. Outros mais contidos, apenas tocaram meu ombro. 

Vieram anunciar que muito em breve estarei com eles saindo desta vida miserável e sofrida.

Lá estava tia Ruth, que me deu um abraço que a muito eu não recebia. Meus avôs, meu pai e alguns amigos que o tempo deixou estático na lembrança. Lá estava o meu ex-colega David Coimbra, que partiu poucos dias atrás, alegre e alto astral como sempre.

Mamãe também estava por lá segurando um cesto de flores. Me olhava de longe com aquele inconfundível blusão azul fechada apenas por três botões com um sorriso largo e aqueles cabelos brancos.

Senti uma forte dor no peito que paralisou todo o meu corpo para em seguida provocar uma paz e um relaxamento que nunca havia sentido antes. 

Abri os olhos depois de um tempo e olhei o teto infinito e um filme correu pela retina da memória revelando a inutilidade concreta. 

Morrer é objeção. O último ato de uma existência.

A morte põe fim aos sofrimentos, dores e angústias. Para a morte não existe o dia seguinte, o logo mais, o depois.

Como escreveu Kafka, “o sentido da vida é que ela termina”.

Nós somos mais do que fantasmas andando por aí, atormentando o mundo dias e noites. Produzindo sombras que cobrem o brilho do sol e a beleza das estrelas. 

Seres de personalidade dúbia. Perigosa como o cristão da esquina, que ao mesmo tempo que condena e esbraveja contra o aborto, silencia sobre o racismo e assente sobre o porte de armas, a tortura e a pena de morte. Que grita e levanta ações contra animais abandonados, mas não se compadece com seres humanos dormindo pelas ruas.

Cansado, não posso mais seguir. Quero parar com essa loucura de viver num mundo onde pastores sorteiam armas e outros trocam o futuro de crianças por barras de ouro.

De ver líderes provocando guerras, olhando para o próprio umbigo. Outros, negando vacinas e comemorando a morte.

Quero seguir aqui deitado nesta cama tentando esquecer o mundo de seres sem alma. Quero fechar meus olhos e confraternizar com os mortos ao meu redor.

Os covardes morrem várias vezes antes de sua morte física, dizia Shakespeare. Morremos na verdade um pouco a cada dia, vendo a inocuidade dos homens.

Mais de 800 milhões de pessoas passam fome no mundo. Na América Latina, 60 milhões. No Brasil, um dos três maiores produtores e exportadores de alimentos do planeta, mais de 50% da população convive com insegurança alimentar e 33,1 milhões de pessoas passam fome. Hoje, 1% da população, detêm mais de 49% de toda riqueza do país.

Minha indignação e inconformidade não é contra quem têm muito. É contra quem não têm nada.

Diante desta realidade, elevo meu pensamento em oração ao céu e Ele não responde.

A mulher demora. A notícia não deve ser boa. Vejo seres flutuando e barulhos lá fora de vivos andando de um lado para o outro. Não sinto minha respiração.

Não quero sair deste transe. Quero que seja permanente.

Fecho os olhos. A imagem descola do meu corpo novamente e me leva ao infinito. Vejo agora cavalos, neve caindo e sinto frio. Estou numa rua longa e deserta. 

Estaria chegando ao inferno? 

Estaria em direção dos nove círculos descritos por Dante, caminhando para o centro da terra em definitivo?

Que sentido faz esta dor lancinante em meu peito, esta falta de ar, este desespero de um grito preso na garganta?

Minha penalidade pela neutralidade, será vagar por toda eternidade sendo picado por vespas e tendo o meu sangue bebido por larvas?

Prefiro acreditar que o inferno não é profundo e quente, Dante, mas frio.

Não sinto mais o corpo e seus males. Não sinto dores. Estou inerte. Mergulhado na mais absoluta paz. 

Não quero voltar. Olho o semblante daquelas pessoas e tento entender suas vidas passadas. O que foram e onde viveram? Como eram tratadas? Como tratavam suas dores, frustrações, perdas, alegrias e tristezas?

Foram capazes de amar um dia? Sentir a febre de uma paixão avassaladora e de serem verdadeiramente amadas?

Alcançaram seus objetivos e seus sonhos ou fracassaram como eu?

Alguém segura a minha mão. É uma senhora de cabelos brancos. Sorri satisfeita e feliz. Conforta meu coração que já não bate.

– Onde está Deus? Ninguém responde.

Ariano Suassuna dizia que acreditava em Deus por necessidade. Se ele não existisse, a vida seria uma aventura amaldiçoada. Dizia que não conseguiria conviver com a visão amarga, dura, atormentada e sangrenta do mundo. E concluia: então, ou existe Deus, ou a vida não tem sentido nenhum. Bastaria a morte para tirar qualquer sentido da existência.

Ele existe – insisto. E meu grito ecoa sem resposta.

Albert Camus dizia que “sem Deus e sem um mestre, o peso dos dias é terrível”.

Qual é o sentido da vida? Que pecado é este que eu tenho que sofrer até a morte?

Para Camus, a felicidade será sempre uma disciplina deixada de lado no currículo da humanidade. Para ele uma vida destinada à morte converte a existência humana num sem-sentido e faz cada homem um absurdo.

No livro A Peste ele tenta tornar possível a vida feliz num mundo mergulhado no caos e destinado à morte.

Seria a busca desesperada do sentido da vida – é uma pergunta?

Nas páginas finais, recorda-nos das guerras, das doenças, do sofrimento dos inocentes, da maldade com que o homem trata o homem e deixa-nos uma reflexão.

A mulher baixa e apressada voltou. Ouvi a porta fechando. Sentou-se perto da cama e chamou pelo meu nome. Abri os olhos e tentei sair da letargia que me envolvia. 

Senti o vento fresco da noite em silêncio. Fechei meus olhos e lembrei dos amigos que vieram me visitar e anunciar que em breve voltariam em definitivo.

No meu canto lembrei do poeta Leandro Gomes de Barros, que formula esse dilema que atormenta a humanidade:

Se eu conversasse com Deus 
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer para pagar?
Uma resposta filosófica ao sentido da vida – pergunto eu?

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Gerald D

By Gerald D

Gerald D é um atento observador da vida, da política, das artes, da música, da literatura e de tudo o que pode enriquecer alguém culturalmente. Gremista desde sempre, de quebra também escreve com muita propriedade sobre futebol

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