O poeta Pablo Neruda

Documentos do Ministério do Interior do Chile revelou em outubro de 2017, que a versão do possível assassinato do poeta e escritor Pablo Neruda é bastante provável.

O assunto nunca foi explorado em nosso continente como deveria. Afinal, estamos falando de um dos maiores poetas latino americanos do século 20, Prêmio Nobel de Literatura, em 1971, que faleceu no dia 23 de setembro de 1973, 11 dias após o golpe militar que derrubou um governo democrático, eleito pelo voto direto, implantando uma ditadura com total apoio dos Estados Unidos, que durou 17 anos e matou mais de 40 mil pessoas.

O assunto veio à baila com grande repercussão na Europa em 2011 depois que Manuel Araya em uma entrevista para a revista mexicana Processo, afirmava que o poeta tinha sido assassinado pela ditadura de Augusto Pinochet – o herói de Paulo Guedes e o estadista de Bolsonaro. 

Na versão oficial, com certidão de óbito, a causa da morte era em consequência de um câncer de próstata. Tal versão criminosa foi totalmente descartada pela equipe internacional em Santiago.

O grupo reuniu 16 especialistas e peritos de Espanha, Estados Unidos, Dinamarca, Canadá, França e Chile que compartilharam seus estudos e análises para chegarem a um ponto em comum e conclusivo. 

Araya foi um jovem militante do partido comunista, que em 1972 foi designado pelo partido para ser motorista e guarda-costas pessoal de Neruda, quando da sua volta para o Chile em apoio ao governo de seu amigo Salvador Allende, deposto e morto pelos golpistas, que nesta ocasião, já sofria as primeiras pressões pré-golpe de estado.

No processo aberto na época pelo promotor Mario Carroza, consta vários depoimentos e documentos, incluindo todos os exames feitos pelo poeta nos seus últimos dias de vida, inclusive um crucial de seu médico particular que revela seu bom estado de saúde e um câncer controlado.

No comunicado divulgado oficialmente, inclusive pela Fundação Neruda, consta que ele entrou na clínica em estado grave pesando em torno de 50 quilos, quando na verdade, segundo os exames feito pelo seu médico pessoal na presença da esposa e do segurança, o poeta pesava 103 quilos e entrara na clínica caminhando normalmente.

Neruda havia recebido um convite de asilo do presidente mexicano Luiz Echeverría Álvarez e pretendia deixar o Chile naqueles dias. Sua ida à clínica para alguns exames preventivos foi um erro.

O país já estava sob golpe de estado. Jornalistas, escritores, músicos, políticos, artistas e militantes de vários partidos e associações de classe estavam sendo presos ou assassinados.

Ele tinha consciência de que o regime queria matá-lo. O governo sabia que se ele saísse do país sendo quem era – um dos maiores nomes da poesia mundial – e denunciasse tudo que estava acontecendo, isso teria uma repercussão imensa e criaria enormes dificuldades para o governo genocida de Pinochet.

Num instante de vacilo, ausentes da sala onde ele estava, um estranho vestido de enfermeiro entrou e lhe aplicou uma injeção letal.

Nesta mesma clínica, em 1982, o ex-presidente Eduardo Frei Montalva, morto supostamente em decorrência de complicações de uma hérnia, foi assassinado, conforme veio a concluir a Justiça chilena, em 2019.

Em um dos depoimentos, narra o relato dos últimos minutos de vida do escritor quando ele liga para a esposa pedindo sua presença e reclamando que a injeção aplicada estava lhe queimando por dentro.

Quando o segurança Araya entrou no quarto recebeu ordens de um médico estranho para buscar uma medicação em um laboratório perto dali. Poucas quadras adiante, foi parado pela polícia e preso. Na hora o jovem motorista entendeu tudo. Tarde demais! Percebeu que tudo aquilo era uma operação para matar Pablo Neruda.

Sempre que escrevo algo sobre ele lembro de alguns de seus textos, poemas, pensamentos e frases maravilhosas.

E dessas lembranças veio um filme produzido em 1994 por Michael Radford chamado IL Postino (O Carteiro e o Poeta), que conta a amizade de Neruda e um carteiro italiano, em 1952, ano em que o escritor chileno abandona seu país por motivos políticos e vai parar numa pequena ilha italiana do mar Mediterrâneo.

O filme recebeu vários prêmios internacionais, entre eles, o Oscar de Melhor Trilha Sonora Original, em 1996. 

E a minha voz nascerá de novo,

 Talvez noutro tempo sem dores,

 E nas alturas arderá de novo o meu coração

 Ardente e estrelado”.

Que assim seja, poeta, que assim seja!

Nota da edição: o trailer do filme IL Postino pode ser assistido no YouTube.

Jehozadak Pereira

By Jehozadak Pereira

Jehozadak Pereira, é jornalista profissional especializado em jornalismo comunitário e produção de conteúdo informativo e de utilidade pública. É ganhador de inúmeros prêmios e reconhecimentos pela qualidade do seu trabalho comunitário e voluntário. É o editor-chefe e principal articulista do A Notícia USA.

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