Logo depois da Segunda Grande Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos investiu vastos recursos num projeto secreto de propaganda cultural.

O detalhe importante desse plano era conduzir a afirmação de que ele não existia. Foi administrado em absoluto sigilo pelo braço de espionagem do país – Agência Central de Inteligência (CIA, em inglês).

A base dessa campanha sigilosa foi chamada de Congresso pela Liberdade Cultural (CCF, em inglês), dirigida por Michael Josselson, um agente da CIA, de 1950 a 1957, com apoio de uma rede extensa e influente de integrantes do serviço de informações, estrategistas políticos, pessoas do meio empresarial e antigos laços estudantis das universidades que compõem o Ivy League.

O projeto secreto, que atraiu figuras como Bertrand Russell, Karl Jaspers, Benedetto Croce e John Dewey, em seu apogeu, tinha escritórios em 35 países, empregava dezenas de pessoas, publicava mais de 20 revistas prestigiosas, realizava exposições artísticas, contava com um serviço de notícias e reportagens, e organizava conferências internacionais amplamente divulgadas.

O plano foi transformado em escândalo, em 1967, pela revista Ramparts, a partir de uma denúncia do New York Times.

Depois disso o CCF mudou de nome e foi rebatizado de Association for Cultural Freedom, apadrinhada pela Fundação Ford e Rockefeller.

Sua missão principal era afastar a intelectualidade da Europa Ocidental de seu fascínio pelo marxismo e o comunismo.

E mais, o projeto não ficou restrito a uma parte da Europa, ganhou o mundo por conta própria.

A CIA – aquela agência atrapalhada e sempre metida em encrencas – bancou jornais críticos do marxismo, do comunismo, do socialismo e de políticas revolucionárias, ganhando apoio de alguns dos maiores expoentes do mundo ocidental, a ponto de muitos passarem a fazer parte de sua folha de pagamento.

Ao mesmo tempo justificavam ou simplesmente ignoravam políticas imperialistas destrutivas e violentas dos Estados Unidos e parceiros.

Entre os intelectuais, estavam Stephen Spender, poeta, romancista e ensaísta inglês; Irving Kristol, escritor e jornalista; Daniel Bell, sociólogo e professor emérito da universidade Harvard; Robert Lowell, poeta; Sidney Hook, filósofo austríaco; Melvin Lasky, jornalista; Dwight MacDonald, escritor, editor, crítico de cinema e filósofo; Hannah Arendt, filósofa; Mary MacCarthy, escritora e crítica literária; Isaiah Berlin, filósofo e historiador, ícone do século 20, e centenas de outros.

Na Europa havia um foco especial em nomes como Raymond Aron, filósofo, sociólogo, historiador, jornalista e professor francês; Arthur Koestler, jornalista, escritor e ativista político, e o escritor Ignacio Silone. Na esquerda democrática e em ex-esquerdistas.

Foi uma das maiores histórias de corrupção intelectual e artística já conhecida no mundo.

Vários livros já foram publicados sobre o tema. Eu escrevo dois: Who paid the piper (Quem pagou a Conta? – A CIA na guerra fria da cultura, traduzido no Brasil pela editora Record, em 2008) da escritora britânica Frances Stonor Saunders e Legacy of ashes (Legado de Cinzas – Uma História da CIA, traduzido no Brasil também pela editora Record, em 2008) de Tim Weiner, vencedor do Prêmio Pulitzer, que registra em um pouco mais de 700 páginas, 65 anos da Agência Central de Inteligência.

Uma arma de propaganda liberal e interesses econômicos dos Estados Unidos não têm tempo, limites e fronteiras.

O CCF foi criado nos primeiros movimentos da Guerra Fria como resposta ao comunismo soviético e seus grupos internacionais reativados na Polônia em 1948.

O encontro em Berlin Ocidental, em junho de 1950, atraiu uma constelação de escritores, jornalistas, filósofos, sociólogos, críticos, historiadores, músicos, artistas, entre os quais, Bertrand Russell, Benedetto Croce, Arthur Koestler, Ignazio Silone, Karl Jaspers, John Dewey, Tennessee Williams, Sidney Hook, Raymond Aron, Irving Kristol. A maioria esquerdistas desiludidos com Stalin.

Com atuações nos cinco continentes, claro, chegou ao nosso rincão. Na terra de Capitu e do Maracatu quem comandava as ações era o poeta e romancista romeno Stefan Baciu, que fugiu para aquelas paragens inebriantes em 1949 e por lá fez amizade com gente de peso da intelectualidade tupiniquim.

Naturalizou-se brasileiro, trabalhou com Carlos Lacerda na Tribuna da Imprensa e criou a revista Cadernos Brasileiros, que durou de 1959 a 1971.

Um dos principais investimentos foi em cima de revistas culturais espalhadas pelo mundo inteiro e financiadas por Washington com editores devidamente alinhados com o chefe Michael Josselson da CIA.

Alemanha, Der Monat; Inglaterra, Encounter; França, Preuves; Itália, Tempo Presente; Áustria, Forum; Japão, Jiyu; Índia, Quest; Nigéria, Black Orpheus. A América Latina ganhou duas publicações: Cuardenos (editada pelo exilado espanhol Julián Gordin) e Mundo Novo (editada pelo uruguaio Emir Rodriguez Monegal).

De todas essas publicações nenhuma superou em qualidade e prestígio a britânica Encounter, lançada em 1953. Tendo como modelo a Partisan Review, reduto das esquerdas americanas e co-editada por Stephen Spender. Era urbana, cosmopolita e de vigor intelectual. Eu diria, talvez, uma New Yorker dos dias atuais.

Teve em suas páginas textos de Bertrand Russell, W.H. Auden, C.P. Snow, Nancy Mitford, Isaiah Berlin. Encounter chegou a vender 30 mil exemplares. Depois da denúncia de 1967 perdeu um terço dos leitores, mas circulou ainda por mais 24 anos.  

É mais do que evidente que essa prática de corrupção antiga não terminou, apenas foi aperfeiçoada com novos elementos.

Se o dinheiro, o prestígio e o apoio incondicional oferecido pelo governo dos Estados Unidos foi capaz de seduzir intelectuais do quilate de um Isaiah Berlin e possivelmente um George Orwell, porque seria diferente nos dias atuais com obscuros blogueiros, jornalistas medíocres, políticos irrelevantes e figuras do judiciário, como um certo ex-juíz?

Pessoas inescrupulosas que vendem sua liberdade e sua consciência moral aos interesses políticos e econômicos de um país estrangeiro, merecem perdão?

Hoje os Estados Unidos e parceiros, em defesa de seus interesses comerciais, adotam outras práticas – também criminosas – contra a soberania de outros países, como embargos econômicos, corrupções e espionagens como foi revelado durante o governo Obama.

Uma lista classificada pela Agência Nacional de Segurança (NSA, em inglês), revelou que além da presidenta Dilma Rousseff, 29 outros telefones foram grampeados pela NSA, incluindo o de ministros, diplomatas, assessores e executivos da Petrobras.

Alguém acha que essas ações terminaram?

Com o salto da tecnologia e o advento da internet o mundo saiu definitivamente de controle. Tudo é possível. Não existe limites. Até suicídios são registrados em tempo real com torcida assistindo e comentando como se fosse algo trivial.

A face sem face do ser humano diante de uma tela foi revelada. É um ser feio. Deplorável. Abjeto. 

E o Brasil é um grande exemplo do que aconteceu e acontece pelas redes sociais e que será devidamente estudado no futuro. 

Jovens irão debater em salas de aula e perguntar aos mais velhos como foi possível um presidente se eleger na base da mentira sem projeto algum para o país. 

Que o diga a jornalista Patrícia Campos Mello, que escreveu A Máquina do Ódio (Companhia das Letras, 2020), que relata num texto envolvente como as redes sociais vêm sendo manipuladas por líderes populistas e movimentos contrários à democracia e ao Estado de Direito. 

Patrícia, uma das mais brilhantes jornalistas dessa geração, foi difamada pelo presidente e ameaçada pelos seus asseclas. Uma horda de bandidos disfarçados, muitos financiados com dinheiro público. 

Não pode existir democracia plena num país onde jornalistas são agredidos, perseguidos, presos e mortos por defenderem a verdade e denunciarem os desmandos e crimes dos governos e governantes.  

Diante desses fatos não têm como não pensar em Julian Paul Assange, preso arbitrariamente por revelar ao mundo os crimes cometidos pelos Estados Unidos, violando tratados e soberanias.

E com isso lembrei de Thomas Jefferson, terceiro presidente, que declarou em Londres, à um emissário brasileiro, que democracia só interessava ao seu país e a nenhum outro, que dizia:

… fosse deixado a mim decidir se deveriam ter um governo sem jornais ou jornais sem um governo, não hesitaria um momento em preferir este último”.

Um Death Flip  à você, Julian, com todo respeito e admiração.

Gerald D

By Gerald D

Gerald D é um atento observador da vida, da política, das artes, da música, da literatura e de tudo o que pode enriquecer alguém culturalmente. Gremista desde sempre, de quebra também escreve com muita propriedade sobre futebol

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