Tomar uma decisão para o resto da vida! Quantos teriam esta coragem? Abandonar uma carreira promissora saindo totalmente ao contrário do que sonha a maioria dos mortais. Quantos seriam capazes?

Pois existem pessoas que abandonaram fama, badalações, capa de revistas e dinheiro que possibilitariam roupas chiques, carrões e casas suntuosas, e que se transformaram em pessoas mais completas, felizes e realizadas. Descobri dias atrás que existem pessoas assim. Vivas e realizadas pela escolha que fizeram. Depois de assistir um documentário na HBO fui atrás de mais informações, pois conhecia a pessoa em questão. Lembrava dela, sabia de sua existência e do seu papel para o cinema. E o que descobri me deixou impactado. Um misto de alegria e tristeza pelo mundo em que vivemos, onde tudo gira em torno do dinheiro e do sucesso profissional. Redescobri Dolores Hart.

Filha de Bert Hicks – 1920-1965, ator de filmes como O Fio da Navalha e Páginas da Vida, sobrinha do famoso tenor Mario Lanza – 1921-1959, Dolores nasceu em 20 de outubro de 1938, em Chicago. Os pais se separaram quando ainda era criança e, adolescente, resolveu ser atriz, tendo a oportunidade de ter sido parceira por duas vezes de Elvis Presley, no segundo filme, Loving You de 1957 e no quarto filme, King Creole de 1960, da lista dos 31 filmes feitos pelo rei do rock.

Bonita, jovem e talentosa, largou tudo em 1963 e entrou para o convento e esta lá até hoje como prioresa, Reverenda Madre na restrita Ordem Beneditina, no Monastério de Regina Laudis em Bethelem, Connecticut. Quando tomou esta decisão estava noiva de Don Robinson, engenheiro, boa pinta e com tudo pronto, enxoval e casa, como manda o figurino, e com um contrato de sete anos pronto para assinar com um grande estúdio de cinema.

Para muitos ela se converteu depois de atuar no filme São Francisco de Assis, de 1961, dirigido por Michael Curtiz, interpretando Santa Clara, mas não é verdade. Ela conta que foi um processo lento e progressivo que levou anos até o momento que recebeu uma carta da Madre Superiora do convento e decidiu que havia chegado a hora. O mais difícil, segundo ela, foi dar a notícia ao noivo. Diante de todos perseverou e nunca se arrependeu de sua decisão.

Sofrendo de uma doença nos ossos que lhe provocam muitas dores, não se entrega e jamais deixou de ajudar as pessoas. Esta sempre com um sorriso no rosto. Hoje sua única ligação com o cinema é votar no Oscar, como a única freira que é sócia votante da Academia de Artes e Ciências de Hollywood.

O mais comovedor ficou para o final. Don Robinson nunca se casou. Durante 47 anos ele ia uma ou duas vezes por ano ao convento onde assistia a missa na capela separado por uma grade. Para quem não sabe, Beneditina é uma ordem religiosa católica de clausura monástica que se baseia na fé, na caridade e no silêncio absoluto. Depois, no gabinete da Madre, eles ficavam juntos por uns dez minutos por uma questão de regras. Falavam essencialmente de como estavam. Na despedida trocavam um abraço e um beijo numa clara demonstração de carinho e respeito. Da porta, Dolores acompanhava Don caminhando já com dificuldades pelo corredor em direção da porta de saída com a promessa de um breve e novo encontro.

Don Robinson, morreu em 2011.

Gerald D

By Gerald D

Gerald D é um atento observador da vida, da política, das artes, da música, da literatura e de tudo o que pode enriquecer alguém culturalmente. Gremista desde sempre, de quebra também escreve com muita propriedade sobre futebol

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