As cenas mostradas pela imprensa de todo o mundo de pessoas despencando de um avião militar que havia decolado do Aeroporto de Cabul e se estatelando na pista, chocaram a todos pela sua brutalidade. O fato ocorrido na segunda-feira, 16, é mais um capítulo da retomada do poder pelo grupo radical islâmico Talibã no Afeganistão, país situado na Ásia Meridional, um dos pontos mundialmente efervescente com a mistura da política com a religião e ocupado pelas forças militares americanas há 20 anos.

Recentemente, o presidente Joe Biden anunciou a retirada total das tropas americanas do Afeganistão, crendo que o grupo Talibã estava erradicado do país. Ledo engano. Refugiados no leniente Paquistão, o Talibã emergiu como força devastadora e atropelou a frágil democracia do país, que funcionava precariamente protegida pelo poderio militar dos Estados Unidos.

A ocupação americana do Afeganistão se deu na esteira dos atentados contra os Estados Unidos perpetrados pela Al Qaeda de Osama Bin Laden e também para erradicar o grupo Talibã, que tem uma interpretação radical do islamismo.

Intolerante com tudo o que se parece com o Ocidente, o grupo impôs na base do chicote e do açoite os seus preceitos infames. Quem não se lembra das cenas dos fanáticos talibãs açoitando mulheres nas ruas do Afeganistão pelo simples motivo de que elas não estavam acompanhadas dos seus maridos, pais ou irmãos. Elas foram sumariamente proibidas de frequentar escolas e um dos mais chocantes atos deles foram contra a paquistanesa Malala Yousafzai. 

Em outubro de 2012, uma milícia talibã atacou a tiros um ônibus que transportava meninas de volta para casa depois das aulas, em Swat, considerada uma das regiões ultraconservadoras no norte do Paquistão. Então com 15 anos, Malala era um alvo do talibã porque defendia abertamente o direito à educação para meninas, sofreu um brutal e violento atentado a bala. Atingida na cabeça, Malala foi retirada do país e levada para o Reino Unido onde mora atualmente. Malala tornou-se uma importante celebridade mundial, discursou na ONU, esteve com presidentes, com a Rainha Elizabeth, ganhou uma série de prêmios, como o Nobel da Paz – sendo a mais jovem da história a receber um Prêmio Nobel, o Prêmio Sakharov de Direitos Humanos do Parlamento Europeu e a Medalha da Liberdade, do Centro Nacional Constitucional dos Estados Unidos, entre outros.

Já o Talibã, até hoje rosna de fúria por ter falhado no atentado contra Malala. Aliás, o Talibã varreu da região monumentos históricos e tombados pela Unesco, como os Budas de Bamiyan, a Mesquita de Samarra, as Rodas D’Água de Hama, a Tumba do Profeta Jonas, o Palácio de Assurnasirpal II, a Cidade de Hatra, o Templo de Baalshamin, o Templo de Bel, o Arco do Triunfo de Palmira, o Monastério de Mar Elian, Nínive entre outras manifestações históricas e culturais como museus, bibliotecas, sítios arqueológicos, mosteiros, igrejas, mesquitas, palácios, templos e necrópoles entre outros.

As ordens para explodir os monumentos partiu diretamente do Mullah Omar porque de acordo com ele, a lei islâmica não permite a adoração de imagens e nada o fez mudar de ideia. Além disto, para o Talibã todos os homens devem obrigatoriamente usar barba, entre outras aberrações.

Em 2009, os Estados Unidos tiveram no Afeganistão cerca de 100 mil homens em 2009, além de outros 40 mil homens das tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que eram os fiadores da frágil democracia afegã.

Os então presidente George W. Bush, Barack Obama e Donald Trump prometeram retirar as tropas americanas do Afeganistão e coube a Joe Biden decretar a medida que foi anunciada em abril deste ano.

Esperava-se ou temia-se que o Talibã literalmente pulasse em cima do Afeganistão e retomasse o poder, mas não se podia imaginar que tudo ocorresse num curtíssimo espaço de tempo. Em pouco mais de duas semanas, dominaram todas as províncias do país e a cena mais significativa foi a tomada do palácio presidencial fazendo com que o presidente Ashraf Ghani e seu vice, Amrullah Saleh fugissem apressadamente do Afeganistão. Foi a senha definitiva para a retomada total do poder, com gritos de ‘morte à América’. 

O Paquistão que desde sempre foi frouxo com o Talibã, tem um papel importante neste conflito, mas não toma nenhuma atitude ou sequer negocia um acordo com milícia islâmica, permitindo que continue cometendo atrocidades contra o povo afegão, sem considerar que pode ocorrer um êxodo de refugiados em direção aos países vizinhos. 

Pressionado por autoridades de outros países e pela opinião pública mundial, Joe Biden disse na segunda-feira, 16, que esperava que o exército afegão pudesse resistir por mais tempo ao Talibã, e que a situação “se desenrolou mais rapidamente que o previsto”. 

Os desenvolvimentos da última semana reforçam que encerrar o envolvimento dos militares americanos no Afeganistão agora era a decisão certa. As tropas americanas não devem nem podem continuar lutando e morrendo em uma guerra que as tropas afegãs não estão dispostas a lutar por si próprias”, disse Biden.

As cenas de horror ocorridas no aeroporto de Cabul, são só o início de uma era de escuridade e obscurantismo que cairá sobre o Afeganistão e seu povo doravante com o Talibã no poder.

A interpretação radical da lei islâmica protagonizada por homens que tem um pensamento da idade da pedra, a violência extrema e a intolerância não arrefecerão, por mais que haja apelos de autoridades mundiais e a tendência é que a violência contra tudo e contra todos aumente consideravelmente nas próximas semanas e meses. Definitivamente, o Afeganistão é um campo minado e cobrará caro o preço da saída dos Estados Unidos e do seu intervencionismo. Os 20 anos de ocupação não criaram resistência e tampouco líderes com força popular e muita coragem para rejeitar a presença do Talibã.

A imagem de corpos despencando do avião militar na segunda-feira, são o início das dores extremas para o Afeganistão e seu povo. De quem é a culpa?  Ou melhor, quem assumirá a culpa?

Jehozadak Pereira

By Jehozadak Pereira

Jehozadak Pereira, é jornalista profissional especializado em jornalismo comunitário e produção de conteúdo informativo e de utilidade pública. É ganhador de inúmeros prêmios e reconhecimentos pela qualidade do seu trabalho comunitário e voluntário. É o editor-chefe e principal articulista do A Notícia USA.

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