A ascensão de Donald Trump na cena política americana virou o país de cabeça para baixo, pois o ex-presidente sempre fez questão de anunciar que a América era para os americanos brancos, saxões e dos europeus. Trump deu vez e voz a uma América profunda, ressentida, amargurada e empobrecida, mas que arreganhou os dentes para mostrar sua força e todo o seu preconceito. Grupos de supremacia branca surgiram das sombras com seus discursos cretinos e suas vozes atrasadas, cheia de ódio e de ressentimento.

Trump se foi, mas toda essa gente branca está por aí ainda. Mas eles têm uma péssima notícia para ouvir. Pela primeira vez na história do país, a população branca diminuiu. As informações são do US Census que nas suas primeiras análises sobre raça e etnia apontam uma mudança na composição ética que implicam diretamente na cena política do país, que com isto passa a ter condados eleitorais mais miscigenados do que foi realizado em 2010 e nos censos anteriores.

O relatório e suas tabulações mostram que o número de pessoas que se identificam como brancas diminuiu desde que o censo teve início em 1790. As pessoas que se declararam brancas em 2010 – cerca de 223,6 milhões caiu para 204,3 milhões em 2020, num decréscimo de 8,6%, fator que foi apontado por especialistas como um indicador de que a nação está mais diversa do que nunca. Estes dados certamente serão usados para que legisladores redesenhem os distritos políticos para a próxima década.

Pela primeira vez, a parcela de brancos foi inferior a 60% do total, caindo de 63,7% em 2010 para 57,8% em 2020.  

É claro que tudo isto faz parte de uma discussão muito ampla e complexa que não cabe num artigo ou num editorial, mas nada impede que possamos discuti-la. Devemos lembrar que a América sempre teve as suas portas abertas para povos de todos os lugares do mundo e foram os primeiros imigrantes que trataram de transformá-la na potência que é hoje.

Muitos povos diferentes fizeram da América a sua casa e deixaram os seus países para aportar na América e fixar aqui residência em verdadeiras multidões. Até o final dos anos 1970 no século 20, quase seis milhões de italianos desembarcaram nos Estados Unidos, principalmente em New York City e arredores, onde dominaram bairros inteiros. Grande parte destes italianos eram semi-analfabetos, e sofreram preconceitos por professarem o catolicismo. Os italianos sofreram os desgostos da falta de planejamento e muitos desistiram do sonho americano e voltaram para a sua terra.

Até 1970, os Estados Unidos eram divididos entre brancos e negros e a partir dai a diversidade tomou conta e hoje os hispanos ultrapassaram os negros em percentual étnico.

Os números da migração são impressionantes. Entre 1892 e 1924 cerca de 20 milhões de imigrantes passaram pelo posto de controle de Ellis Island em New York, onde está situada a Estátua da Liberdade. Estes imigrantes imprimiram uma nova cara à América em costumes, muito trabalho ao passo que os filhos dos imigrantes que nasceram aqui, tinham um pé em alguma nação do mundo. Uma frase escrita na base da estátua dava o tom de como os imigrantes seriam recebidos na América – Venham a mim as massas exaustas, pobres e confusas ansiando por respirar liberdade. Venham a mim os desabrigados, os que estão sob a tempestade. Eu os guio com minha tocha.

Mesmo assim a migração sempre foi um problema para os Estados Unidos, principalmente por falta de uma política que regulamentasse o assunto. Mesmo sendo um problema, a migração sempre foi tolerada pelo governo americano e a cada ano que passa tende a aumentar cada vez mais, como mostram as recentes crises na fronteira com o México.

Carente de mão de obra não especializada, os Estados Unidos destinam aos imigrantes os postos de trabalho que o americano jamais deseja. Com isto a oferta de empregos sempre foi maior que a demanda de mão de obra, sempre farta, pois o que nunca faltou foi imigrante chegando todos os dias aos milhares.

Grande parte destas pessoas estão nas sombras por falta de documentos, mas contribuindo com o seu suor e dinheiro para que a América seja sempre próspera. Claro que muito há para ser feito, e as autoridades podem e devem impor regras para corrigir este estado de coisas, o que é sim, um direito inquestionável, mesmo que algumas injustiças sejam cometidas, mas isto é para ser discutido em outra oportunidade.

É imperioso que se saiba que temos direitos, mas também deveres dos quais jamais podemos nos furtar de cumprir. O fato de não ter documentos não transforma ninguém em um fora-da-lei, também não nos faz pobres coitados desamparados e a míngua.

O último censo, realizado mesmo com a oposição ferrenha de Donald Trump, tratou de mostrar que a América já não é tão branca como se imaginava ser. Um sinal dos tempos. De novos tempos, apesar da oposição.

Viva a América diversa e miscigenada…

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